
Nos departamentos jurídicos corporativos, o risco jurídico costuma ser associado a eventos visíveis: um processo relevante, uma contingência inesperada ou uma decisão judicial desfavorável. São esses marcos que normalmente entram nos relatórios, nas reuniões e nas discussões estratégicas das empresas.
Mas, na prática, boa parte do problema nasce antes, de maneira silenciosa, diluída na rotina e, muitas vezes, normalizada pelo próprio volume de trabalho. Por isso, a verdadeira prevenção de riscos jurídicos deve olhar para o que não é extraordinário, mas sim estrutural.
O cotidiano jurídico é feito de decisões constantes. São pareceres emitidos sob pressão de prazo, análises repetidas de temas semelhantes e respostas que precisam equilibrar técnica, negócio e contexto específico. Isoladamente, cada decisão parece correta, técnica e fundamentada para aquele momento.
O problema surge quando essas decisões não se conectam entre si. Sem visibilidade sobre o histórico decisório, o jurídico passa a operar como se cada novo caso fosse o primeiro. A lógica se reinicia, o racional se perde e o que deveria ser consistência vira variação não intencional.
Esse tipo de falha na prevenção de riscos jurídicos não aparece no processo. Ele nasce na fragmentação da informação.
Em muitos jurídicos, inclusive nos mais maduros, o conhecimento decisório fica disperso. Ele está em pastas diferentes, em arquivos individuais ou, o que é mais grave, na memória de quem participou daquela análise específica.
Não há necessariamente uma falha técnica nesse modelo, mas há uma limitação estrutural na forma como as decisões jurídicas são registradas e recuperadas. Quando decisões anteriores não são facilmente acessíveis, o jurídico perde a capacidade de enxergar padrões, exceções e recorrências.
Sem essa visão, o risco deixa de ser algo gerenciado para se tornar algo reagido. O resultado é um ambiente em que:
Com o tempo, esse cenário passa a fazer parte da rotina. Surgem frases como “é assim mesmo”, “não dá tempo de olhar tudo” ou “cada caso tem sua particularidade”. Essas expressões não indicam necessariamente desorganização, mas sim uma adaptação a um volume crescente de demandas e decisões.
O perigo está em normalizar esse funcionamento. Quando isso acontece, o jurídico passa a conviver com riscos que não são percebidos como tais, porque não se manifestam imediatamente, não geram crise instantânea e não deixam rastro claro.
São riscos silenciosos, acumulados decisão após decisão, que tornam a prevenção de riscos jurídicos cada vez mais difícil.
Quando esse risco finalmente se materializa, ele raramente é atribuído à sua verdadeira origem. A inconsistência aparece em auditorias, em questionamentos internos ou em disputas que exigem explicações sobre decisões passadas que já não estão claras.
Nesse momento, o esforço do departamento deixa de ser estritamente jurídico e passa a ser quase investigativo. É preciso entender por que algo foi decidido daquela forma no passado.
O problema, então, deixa de ser operacional e se transforma em um tema crítico de governança corporativa.
Falar sobre prevenção de riscos jurídicos não é apenas falar sobre erro, contingência ou litígio. É falar sobre como as decisões são registradas, conectadas e lembradas ao longo do tempo.
Enquanto o jurídico não consegue enxergar sua própria rotina decisória como um sistema, e não como eventos isolados, parte relevante do risco continuará fora do radar.
E a máxima permanece válida: o que não se enxerga, não se gerencia.