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Gestão de Saúde
29.9.2026

Qualidade dos dados na saúde: por que ela é decisiva para o sucesso da IA

A IA pode ser sofisticada. Se a base não representa a operação, ela apenas escala a incerteza.

Uma operadora pode acumular milhões de registros e ainda não possuir os dados adequados para determinada aplicação de inteligência artificial.

O problema não aparece apenas quando existem campos vazios ou informações claramente incorretas. Uma base pode estar tecnicamente preenchida e, mesmo assim, misturar classificações diferentes, reunir dados que deixaram de representar a operação atual ou não registrar justamente as exceções que mais importam para o processo que se pretende automatizar.

É por isso que qualidade dos dados na saúde não pode ser confundida com quantidade de informação.

Antes de perguntar qual modelo utilizar, que atividade automatizar ou onde aplicar agentes inteligentes, a operadora precisa responder a uma questão anterior: os dados disponíveis representam de maneira suficientemente confiável aquilo que a tecnologia precisará compreender?

Um dado só é bom quando serve para o uso que terá

Não existe uma base universalmente “pronta para IA”.

Os dados necessários para analisar contas médicas não são exatamente os mesmos utilizados para acompanhar atendimento, prever comportamento de uma carteira ou organizar uma rotina administrativa.

A qualidade depende da finalidade.

Uma informação cadastral pode ser suficiente para uma atividade operacional simples e inadequada para uma análise que exige histórico. Uma base pode funcionar bem para calcular determinado indicador financeiro e não possuir granularidade suficiente para um modelo que precisa identificar padrões por procedimento, prestador ou perfil de utilização.

Isso muda a ordem de um projeto de inteligência artificial.

Em vez de começar perguntando “quais dados temos?”, é mais útil definir primeiro qual decisão, análise ou atividade a tecnologia deverá apoiar. A partir daí, torna-se possível verificar se as informações necessárias existem, se possuem histórico suficiente e se foram registradas de maneira consistente ao longo do tempo.

A qualidade deixa de ser uma característica abstrata da base e passa a ser uma condição para um uso específico.

Completude não é preencher todos os campos

Na saúde suplementar, a preocupação com qualidade da informação existe muito antes da atual expansão da IA.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mantém o Monitora TISS, programa dedicado ao monitoramento da qualidade dos dados do Padrão de Troca de Informações na Saúde Suplementar (TISS). Entre os pontos acompanhados está justamente a completude das informações enviadas.

Mas completude não significa simplesmente eliminar campos em branco.

Imagine uma operadora que pretende identificar padrões em contas médicas. Se determinado tipo de ocorrência é registrado de forma estruturada em uma área, mas tratado por e-mail ou planilha em outra, o sistema pode receber uma base aparentemente extensa e ainda assim enxergar apenas parte da realidade.

O mesmo acontece quando um campo existe, mas passou a ser preenchido adequadamente apenas nos últimos meses. Há informação disponível, porém o histórico não representa o mesmo fenômeno durante todo o período.

Para uma aplicação de IA, portanto, a pergunta não é apenas:

“o campo está preenchido?”

Também é:

“aquilo que precisamos observar realmente aparece nessa base?”

Essa diferença é fundamental porque a tecnologia consegue processar aquilo que foi registrado. Ela não recupera automaticamente eventos, decisões ou exceções que nunca chegaram à informação estruturada.

Se o significado muda, o modelo pode enxergar uma mudança que nunca aconteceu

Outro problema aparece quando a mesma informação não mantém o mesmo significado ao longo da operação.

Motivos de glosa podem ser classificados de maneiras diferentes. Prestadores podem aparecer com cadastros duplicados. Uma categoria interna pode mudar de nome ou de critério. Uma nova regra de preenchimento pode alterar a quantidade de registros de determinado tipo sem que tenha ocorrido qualquer mudança real no comportamento assistencial.

Para uma pessoa que conhece a história do processo, a diferença talvez seja evidente.

Para um modelo, ela pode parecer um novo padrão.

A padronização promovida pelo próprio TISS ajuda a dimensionar essa necessidade. O padrão estabelece componentes relacionados à estrutura dos dados e à representação de conceitos, criando referências comuns para a troca de informações no setor. Em julho de 2026, a ANS mantinha uma versão atualizada do Padrão TISS e de suas terminologias associadas.

Dentro da operadora, o mesmo princípio precisa alcançar classificações próprias.

Dicionários de dados, regras de cadastro e definições compartilhadas ajudam a impedir que áreas diferentes utilizem o mesmo nome para coisas distintas ou nomes diferentes para aquilo que deveria ser comparável.

IA não elimina a necessidade de organizar conceitos. Ela torna o custo da desorganização mais visível.

Dados envelhecem porque a operação muda

Uma base também pode perder qualidade sem que ninguém tenha cometido um erro.

Beneficiários entram e saem da carteira. A rede prestadora muda. Regras são atualizadas. Produtos são alterados. Processos administrativos evoluem. O comportamento observado em determinado período pode deixar de representar aquilo que acontece meses depois.

Em aprendizado de máquina, esse fenômeno faz parte da discussão sobre dataset shift, quando a distribuição dos dados encontrada durante o uso deixa de corresponder adequadamente àquela sobre a qual o modelo foi desenvolvido ou avaliado.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 no Journal of Biomedical Informatics analisou estratégias para detectar e mitigar esse tipo de mudança em modelos de previsão em saúde. O trabalho reforça um ponto particularmente importante para a gestão: monitorar a qualidade apenas antes da implantação não é suficiente.

O estudo trata de aplicações de aprendizado de máquina em saúde em sentido amplo e não especificamente de operadoras brasileiras. O princípio, porém, é diretamente útil para qualquer operação dinâmica.

Se o processo que gera os dados mudou, a organização precisa saber se a tecnologia continua interpretando corretamente aquilo que recebe.

Isso vale para modelos preditivos, classificações automatizadas e, cada vez mais, para agentes que consultam informações e executam ações a partir delas.

Integrar sistemas não corrige informações ruins

Integração é indispensável para que uma IA consiga trabalhar com contexto. Mas integrar e qualificar são coisas diferentes.

Se duas bases possuem informações divergentes e passam a se comunicar, a integração pode simplesmente fazer a inconsistência circular com maior eficiência.

Imagine dois sistemas com situações diferentes para o mesmo prestador. Ou uma informação cadastral atualizada em uma aplicação que nunca retornou para aquela reconhecida como fonte oficial. Conectar essas bases não responde automaticamente qual registro deve prevalecer.

Por isso, integração exige também responsabilidade sobre os dados.

A operadora precisa saber:

  • qual sistema é referência para cada informação relevante;
  • como divergências entre bases são identificadas e resolvidas;
  • quando uma atualização deve se propagar para outros sistemas;
  • quais alterações precisam preservar histórico;
  • quem responde pela qualidade do dado na origem.

A discussão é importante porque agentes de IA ampliam a capacidade de consultar diferentes fontes e agir sobre elas. Quanto maior a autonomia da tecnologia, mais perigoso se torna trabalhar com versões concorrentes da mesma realidade.

Um agente rápido conectado à fonte errada continua tomando decisões sobre a fonte errada.

A saúde da base também precisa ser medida

Se qualidade é essencial para IA, ela não pode ser avaliada somente quando o resultado da tecnologia parece estranho.

É possível acompanhar sinais antes disso.

Dependendo da aplicação, a operadora pode observar indicadores como:

  • campos essenciais incompletos;
  • registros duplicados;
  • divergências entre sistemas;
  • atrasos de atualização;
  • rejeições ou inconsistências em trocas de dados;
  • volume de correções manuais;
  • mudanças relevantes na distribuição dos dados utilizados por modelos.

Esses indicadores ajudam a localizar onde a informação começa a perder qualidade, em vez de descobrir o problema somente depois que ele contaminou um relatório, uma automação ou uma análise.

A própria Agenda Regulatória da ANS para 2026–2028 reforça a relevância do tema ao incluir, no eixo de Sustentabilidade, Dados e Governança da Informação, assuntos como transparência e qualidade dos dados do setor e integração de dados assistenciais para medir cuidado, qualidade, risco e desempenho com governança. A Agenda funciona como planejamento regulatório e não significa que todos esses temas já tenham se convertido em novas obrigações normativas.

Esse cuidado com a informação também não pode ficar restrito à equipe de tecnologia.

Se um campo nasce incompleto porque o processo não exige seu preenchimento, existe uma questão operacional. Se áreas utilizam classificações diferentes, há uma questão de governança. Se uma informação demora a ser atualizada, é preciso entender em que ponto do fluxo surgiu o atraso.

A área de dados consegue revelar o problema. Nem sempre consegue resolvê-lo sozinha.

Uma base completa ainda pode representar mal a realidade

Existe uma camada adicional que se torna particularmente importante quando a IA passa a apoiar análises mais sensíveis: representatividade.

Uma base pode estar completa segundo suas próprias regras e ainda representar determinados grupos, regiões, tipos de atendimento ou situações muito melhor do que outros.

Uma revisão publicada em 2025 na npj Digital Medicine examinou vieses em aplicações de IA na saúde e mostrou como problemas podem surgir desde a coleta e seleção das informações até o desenvolvimento e a aplicação dos modelos.

Novamente, não se trata de um estudo específico sobre saúde suplementar brasileira. Ele ajuda a sustentar um princípio mais amplo: qualidade não significa apenas ausência de erro técnico.

Antes de utilizar uma base para determinada finalidade, é preciso entender de quem e de quais situações ela fala.

Um histórico formado principalmente por determinado perfil de beneficiário, configuração de rede ou região pode exigir cautela quando utilizado em outro contexto. Da mesma forma, registros produzidos por um processo antigo podem refletir comportamentos que a operadora já modificou.

A pergunta deixa de ser “temos dados suficientes?” e passa a incluir:

“esses dados são adequados para representar o problema que queremos resolver?”

A Benner conecta qualidade do dado à operação que o produz

A qualidade necessária para IA não começa no modelo. Começa nos processos que produzem a informação.

O Benner Saúde reúne em uma mesma estrutura capacidades relacionadas à gestão de beneficiários e rede credenciada, regulação e auditoria, faturamento, TISS e indicadores de gestão. A plataforma também apresenta recursos de inteligência artificial aplicados a etapas como análise de guias, sinistros e autorizações.

Essa integração é relevante porque reduz a distância entre o dado e o processo que lhe deu origem.

Quando uma informação sobre autorização, prestador, conta ou beneficiário precisa ser compreendida, a qualidade não depende somente de um banco tecnicamente organizado. Depende de conseguir relacionar o registro ao que efetivamente aconteceu na operação.

É nesse ponto que integração, governança e inteligência deixam de ser projetos separados.

Uma IA pode encontrar padrões, priorizar situações ou participar da execução de processos. Mas a confiança nesse resultado continuará dependendo da capacidade da operadora de saber de onde veio a informação, o que ela significa, quando foi atualizada e para qual uso ela realmente serve.

Antes de tornar a IA mais inteligente, torne o dado mais confiável

O maior risco de uma base ruim não é apenas produzir uma resposta errada.

É produzir uma resposta aparentemente convincente sobre uma realidade que os dados representam de maneira incompleta.

Por isso, preparar uma operadora para inteligência artificial não exige transformar toda a informação em uma base perfeita antes de começar. Exige reconhecer qual nível de qualidade cada uso demanda, medir as fragilidades relevantes e melhorar continuamente aquilo que alimenta a tecnologia.

A IA amplia a capacidade de analisar e executar em escala.

A qualidade dos dados define o que exatamente será ampliado.

Conheça as soluções Benner para Saúde e veja como processos integrados, dados estruturados e inteligência podem apoiar uma operação mais confiável e preparada para avançar com IA.

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